Quem acompanha o Relatório Focus – boletim do Banco Central que consolida as expectativas do mercado para variáveis macroeconômicas – sabe que projeções não são estáticas. Elas evoluem conforme novas informações surgem, choques se materializam e o próprio arcabouço de política econômica muda. Isso ocorre em todo o mundo, mas tende a ser mais pronunciado em economias emergentes, como o Brasil, onde ciclos econômicos e políticos são mais voláteis. Assim, é natural que o erro esperado aumente com o horizonte de projeção.
Na tabela desta semana, apresentamos uma proxy para surpresas macroeconômicas, construída a partir da diferença entre a mediana das expectativas na primeira coleta de cada ano e na última observação disponível. Essa aproximação desconsidera revisões feitas posteriormente sobre os dados observados e permite calcular algumas estatísticas descritivas básicas, conforme apresentado na tabela.
O erro médio sugere um viés “pessimista” nas projeções: a depreciação do câmbio e a inflação tendem a ser superestimadas, enquanto o crescimento do PIB costuma ficar aquém do realizado. Já os erros na taxa de juros não parecem indicar viés claro. Por outro lado, o erro absoluto médio (média dos erros em módulo), dá noção da dispersão dos desvios (independentemente da direção) e deixa claro como os erros na taxa de câmbio tendem a ser particularmente altos frente às demais variáveis. A interpretação das medianas é semelhante, mas reduzem a influência de extremos, como as surpresas em 2020.
Em perspectiva, os erros deste ano foram menores do que o usual. As projeções para Selic e PIB ficaram próximas ao esperado no início do ano e, mesmo na taxa de câmbio, o desvio foi inferior à média em termos percentuais. Em termos relativos, a maior surpresa veio da desinflação, ainda assim próxima à mediana dos erros em módulo.
Por fim, é importante interpretar os resultados com cautela, dadas as limitações da amostra e o comportamento não normal das séries, que limitam inferências baseadas apenas em médias. Ainda assim, o exercício sugere que os palpites deste ano não foram assim tão ruins e reforça que previsões devem ser avaliadas dentro de margens plausíveis de incerteza, e não como pontos exatos.

