O mês de janeiro foi marcado pela forte performance do Ibovespa (12,6%), a maior variação mensal desde novembro de 2020. Não por acaso, no mesmo período, registrou-se uma forte entrada de capital estrangeiro na bolsa, da ordem de R$ 26,3 bilhões, valor superior ao fluxo acumulado em todo o ano anterior (R$ 25,5 bilhões). Dados preliminares sugerem que esse movimento segue robusto em fevereiro, com entrada acumulada de aproximadamente R$ 8,76 bilhões até o dia 13. Historicamente, grandes ingressos de capital externo costumam coincidir com janelas de valorização do mercado acionário brasileiro, embora a relação causal entre fluxo e retorno não seja trivial.
No View of the Week desta semana, apresenta-se um estudo comparativo entre as variações mensais do Ibovespa e o fluxo estrangeiro desde março de 2008. O gráfico mostra a dispersão entre o retorno mensal do índice e a entrada líquida de recursos externos, medida como percentual da capitalização de mercado do Ibovespa. Essa padronização torna os dados comparáveis ao longo do tempo, ao ajustar o fluxo ao tamanho do mercado em cada período. Em janeiro, por exemplo, os R$ 26,3 bilhões representaram cerca de 0,7% do valor de mercado do índice, o quarto maior registro da série histórica nessa métrica.
As estimativas do impacto do fluxo estrangeiro sobre o retorno do Ibovespa variam conforme a especificação econométrica e, sobretudo, conforme as variáveis de controle incluídas (como o desempenho dos mercados globais, a taxa de câmbio e os preços de commodities). Ainda assim, o coeficiente estimado mostrou-se consistentemente positivo nos diferentes modelos testados. Considerando um conjunto amplo de especificações, uma entrada equivalente a 1% da capitalização de mercado (cerca de R$ 44 bilhões atualmente) esteve associada a altas mensais entre 6% e 14% no Ibovespa.
Os resultados reforçam a correlação positiva entre fluxo e performance, ao mesmo tempo em que evidenciam a dificuldade de estabelecer uma relação estritamente causal entre as duas variáveis. De todo modo, tais estimativas devem ser interpretadas com cautela, pois o fluxo estrangeiro raramente atua de forma isolada. Ao contrário, tende a refletir e amplificar outros vetores de preço, sejam eles associados a narrativas domésticas ou ao ambiente externo.
